A totalidade do ser em sua singularidade

A TOTALIDADE DO SER EM SUA SINGULARIDADE

 Teresa Amorim

 

O principal objetivo desse trabalho é mostrar que é possível promover toda a possibilidade do encontro dialógico do terapeuta, frente à existência e essência do ser, com respeito e admiração por toda a sua singularidade. Um verdadeiro incluir-se na alteridade do ser, aceitá-lo e confirmá-lo, é o elemento essencial para a revelação de sua totalidade singular. Diante da revelação do Eu-Isso, à chegada do momento Eu-Tu, onde a totalidade singular do ser se faz presente. Partindo sempre de uma postura horizontal e presente, reverenciando o essencial e a totalidade do ser e na totalidade desse encontro.   

Freqüentemente um aspecto importante, e por que não dizer principal, é que o terapeuta tem presente no set terapêutico, é a possibilidade de um verdadeiro encontro dialógico e todas as suas implicações frente à existência e essência do ser – sua totalidade e singularidade se confundem. Geralmente as manifestações de totalidade são reveladas em uma magnitude de rara beleza, são momentos, onde o intrapsíquico, o interpessoal e o transpessoal caminham de mãos dadas, na plenitude da complexidade e simplicidade humana. São momentos recheados de emoções, sentimentos na descoberta de uma fusão da totalidade no sentido de uma identidade total cheia de significados, e ao mesmo tempo, com uma significação única: a real totalidade do ser em sua singularidade frente à experiência sublime do momento Eu-Tu. A perplexidade do ser em seu próprio ser.

Nessas ocasiões é de vital importância o processo de responsabilidade por parte do terapeuta em tornar a situação terapêutica um campo fértil, que na maior parte das vezes, vem cheio de atalhos. A partir desses momentos somos alimentados pelo privilégio de traçar um caminho de parceria com nossos clientes. Reafirmando aqui, o processo terapêutico como um todo, experienciado por ambos, terapeuta e cliente dentro de uma totalidade dinamicamente transformadora. 

O self como síntese da nossa existência revela a nossa íntima relação com o mundo. É preciso, pouco a pouco, desafiar o self, muitas vezes atrofiado, ao contato pleno da relação Eu-Tu, juntamente com o self do terapeuta. A complexidade, e por outro lado, a simplicidade dessa manifestação torna real a capacidade da expressão da totalidade do ser.   

“Em contraste com a idéia ocidental da inevitabilidade do estar dividido, as filosofias e religiões orientais dizem que o homem pode atingir a totalidade. Um dos objetivos principais da meditação no Zen-Budismo é atingir a totalidade, tanto dentro de si mesmo como entre si e o resto do universo.

Eu também creio que o homem pode alcançar a totalidade. Não acredito que muitas pessoas alcancem um estado contínuo de totalidade dentro de si próprios, mas acho que é possível toda as pessoas conseguirem isto de momento em momento. De fato, penso que atingir a totalidade, a harmonia interna do corpo mente e espírito, pode ser a tarefa mais importante do homem.”“.

Stephen Tobin 

 

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Texto elaborado para apresentação de mini-curso no IX Encontro de Gestalt em Goiano da Abordagem Gestáltica, maio de 2003.

 

Toda relação atual com um ser presente no mundo é exclusiva. O seu Tu é destacado, posto à parte, o único existente diante de nós. Ele enche o horizonte, não como se nada mais existisse, mas tudo o mais vive na sua luz. Enquanto dura a presença da relação sua amplidão universal é incontestável.

Buber

 

E é principalmente nesse sentido da presença que Buber tenta retratar a totalidade do ser numa atmosfera, onde a concepção do contexto Eu-Tu, formula uma abordagem centrada na experiência da intersubjetividade humana na busca da totalidade emergente.

Para o terapeuta de abordagem dialógica, a expressão única do ser em sua totalidade se faz presente na presença de um encontro genuíno Eu-Tu. No ato de reverenciar a alteridade do ser, a awareness se faz presente. Desse modo, a situação terapêutica explicita seu valor existencial.

 

Do ponto de vista da alma, a relação perfeita só pode ser concebida como bipolar, como uma “coincidentia oppositorum”, como união dos sentimentos contrários. 

Buber

 

A descoberta da perspectiva da polarização é necessariamente a fronteira de contato experienciada pelo paciente na participação da plenitude do momento Eu-Tu. A existência bipolar refere-se à dialética intrapsíquica Eu-Isso que se integra à dialógica interpessoal baseado na relação Eu-Tu, e na maior parte das vezes, transcendendo a esfera transpessoal da natureza cósmica.

A integração das polaridades cria um ambiente fértil para a totalização do ser. Aceitar, confirmar e confrontar as polaridades são requisitos para o verdadeiro terapeuta dialógica, que está a serviço do outro.

 

A estrutura clara e sólida da relação Eu-Tu, familiar a todo aquele de coração aberto e que possui coragem para aí se engajar, não é de natureza mística. Para compreendê-la, devemos, às vezes, nos desligar de nossos hábitos de pensamentos, sem, no entanto, renunciar às normas originais que determinaram o modo próprio de o homem pensar aquilo que é atual. 

Buber

 

Ao mesmo tempo o processo também implica numa postura fenomenológica, na insistência em suspender temporariamente seus pressupostos conceituais do mundo. Tanto a presença e “suspensão” fenomenológica são instrumentos básicos para a tarefa inicial do terapeuta, assim como dando ênfase na singularidade, na alteridade e no “centro dinâmico da pessoa” como Buber nos sugere. A valorização criativa da resistência segundo Hycner deve ser incorporada: “A resistência não deve ser castigada, mas sim abraçada!” Hycner.

 Como terapeutas devemos correr os riscos de engajar-se numa ruela estreita, de coração aberto, rejeitando nossas próprias hipóteses, e apenas dispondo de nossa awareness presente. Um momento ímpar da sabedoria organísmica e dinâmica do ser. Poeticamente um instante de totalidade única nos aniquila do Eu – egótico e transcende na experiência do inter-humano como um sinal de totalidade cósmica. 

A palavra-princípio Eu-Tu só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade.

A palavra-princípio Eu-Isso não pode jamais ser proferida pelo ser em sua totalidade.

(...).

O mundo como experiência diz respeito à palavra-princípio Eu-Isso. 

A palavra-princípio Eu-Tu fundamenta o mundo da relação.

Buber

 

Com uma orientação existencial dialógica na abordagem gestáltica, sob a perspectiva fenomenológica, sou capturada pela dimensão do ser em toda a sua singularidade. Num sentido mais profundo, isso significa que a singularidade manifesta-se na própria expressão do diálogo genuíno, e onde a totalidade do ser emerge. E assim sendo, a presença terapêutica e toda a sua mobilização através da inclusão, é de vital importância para todo o trabalho terapêutico.

Não é possível encontrar a verdadeira totalidade sem o encontro Eu-Tu, sem incluir a dimensão do outro, do mundo. Numa abordagem dialógica, somente Eu-Tu reúne a totalidade inerente da estrutura total do ser. 

Há algum tempo tenho pensado na complexidade que são nossos atendimentos frente à totalidade do ser em particular. A imensidão da totalidade do ser, todo o seu potencial adormecido, esquecido, fragmentado. Acredito que somente nos momentos Eu-Tu, temos a real imediatez da nossa responsabilidade enquanto terapeutas dialógicos, da singularidade de experienciar, o viver profundo do reconhecimento existencial. Uma intersubjetividade genuína, onde um self desafia o self do outro, e desvelando com isso a dimensão interpessoal da relação terapêutica. 

 

O Eu da palavra-princípio Eu-Isso aparece como egótico e toma consciência de si como sujeito (de experiência e de utilização). (...).

A pessoa aparece no momento em que entra em relação com outras pessoas. 

(...).

A relação com o Tu é imediata. Entre o Eu e o Tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema, nenhuma fantasia; e a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade.

Buber

 

Na condição de terapeutas somos levados por uma estrada, por muitas vezes estreita na descrição dos nossos pacientes, em que insistem em não aceitar, confirmar a sua totalidade bipolar. Limitados em suas percepções do real valor e dimensão de sua totalidade, temos um trabalho árduo e continuo, onde mais e mais camadas emergem da imensidão de um oceano de sentimentos, onde mais do que uma simples adição particular desse ser se fazem presentes.

É preciso compreender a extensão da totalidade dada pelo verdadeiro encontro Eu-Tu. Na realidade é necessário ir mais além e acompanhar esse ser único em toda a sua soma, em toda a sua totalidade. Criando e recriando a construção de uma identidade, sua totalidade se torna emergente.

É preciso entender a experiência, a totalidade do outro.  É preciso manter a nossa awareness bem desenvolvida, para estar realmente presente na relação que se estabelece com o paciente frente a um misterioso e ao mesmo tempo surpreendente momento de graça. Como elemento básico da relação dialógica, o entre – “o reconhecimento da dimensão ontológica no encontro entre pessoas”. Buber. 

Quando, seguindo nosso caminho, encontramos um homem que, seguindo o seu caminho, vem ao nosso encontro, temos conhecimento somente de nossa parte do caminho, e não da sua, pois esta nós vivenciamos somente no encontro. 

Buber

É necessária uma inclusão na história desse ser, e com ele percorrer seus sentimentos mais profundos. É preciso catar todos os pedaços, que muitas vezes, o próprio paciente rejeita, e onde muitas vezes reside a sua totalidade. A cada passo temos como objetivo simples e único – a chegada do outro. Até que sua energia de vida possa romper a fronteira de contato como um grande ritual de passagem. Como terapeutas precisamos ter paciência, mobilidade, determinação e coragem para acolher esse ser como um todo, e com isso reafirmado-o em sua totalidade. 

Uma vez ouvi uma queixa, um grande desabafo de um paciente que possui uma doença rara e que ao mesmo tempo o deixa limitado fisicamente. A fala veio com toda a sua totalidade emocional: “Eu só queria ser uma pessoa normal, poder trabalhar, viver como qualquer pessoa”.A frase veio acompanhada de todos os seus pedaços e ao mesmo tempo de toda a sua totalidade. Fui incluída em toda a sua singularidade de uma maneira tão fugaz que fico emocionada só de lembrar. E é dessa maneira que percebo e vivo a minha função de acompanhar essa extraordinária e particular forma de simplesmente ser o que se é. Como necessidade básica, somos desafiados a penetrar, incluir-se na totalidade única de cada ser. O essencial nessa tarefa é suspender qualquer conceito pré-estabelecido do ser, de seu comportamento ou emoções.

 

A Totalidade Relacional

“A relação Eu-Tu é uma atitude de genuíno interesse na pessoa com quem estamos interagindo verdadeiramente como pessoa”.

“A atitude com que me aproximo do outro é, também, a atitude com que me aproximo de mim mesmo”.

Hycner

Acredito que a expansão da totalidade se dá através do relacional, na qualidade dessas relações. Ir ao encontro do outro é também ir ao encontro de mim mesmo. Temos necessariamente que manter uma totalidade relacional como fator de cura. Uma via de mão dupla, sem esquecer que é a emergência da totalidade do outro que está em jogo, e que somos naquele momento apenas, parceiros de vida como diz Jean Clark Juliano: “Em terapia, o terapeuta torna-se um parceiro de vida que ajuda a iluminar caminhos e abrir atalhos, emprestando seus sentimentos e emoções para essa busca”.

Ao mesmo tempo a totalidade humana se expande na relação Eu-Tu, na esfera do “entre”, onde transcendendo nosso senso de identidade, chegamos a uma totalidade macro. 

As revelações poderosas que estão na origem das grandes comunidades, nos movimentos de transição das etapas da humanidade, nada mais são do que eterna revelação. A revelação, no entanto, não é derramada sobre o mundo através de seu destinatário, como se o fosse através de um funil; ela chega a ele, ela o toma em sua totalidade, em todo o seu modo de ser e se amalgama a ele. Também o homem, que é a “boca”, é exatamente a boca e não um órgão que soa segundo suas próprias leis e soar é transformar.

Buber 

 

A ressaca emocional em toda a sua totalidade

Diante do câncer e de todas as suas fases dolorosas, onde a crença e descrença se fazem presentes, a fala do paciente desabafa na sua totalidade, sua ressaca emocional. A sessão com uma verbalização clara e emocionada, o paciente relata a sua ressaca emocional depois de muitos anos da doença. Mesmo com toda a fragmentação que a própria doença trazia, ali estava a totalidade desse ser em toda a sua singularidade. Era hora de refazer, contabilizar as perdas acumuladas nesses anos. Num momento onde o intrapsíquico, interpessoal e transpessoal se misturavam numa grande alquimia emocional que o paciente percorria e expressava. Ali estava diante de mim a totalidade singular e todas as suas perdas, a cada palavra, a cada olhar um mergulho profundo na totalidade singular desse ser. 

É necessário uma conduta mais digna por parte do terapeuta, da valorização do ser, do valor total de sua história de vida, de seus bloqueios – resistências, do diferente, do surpreendente. 

A indigência social em que vivemos criam criaturas mortas, onde a expressão da totalidade do ser em sua singularidade é reduzida a breves manifestações fragmentadas. Legitimar a totalidade é correr os riscos da não aceitação e da não conformação por parte da sociedade. O ser total desaparece na penúria afetiva a qual fomos educados e criados. E nessa procura aflita permanecemos paralisados na relação Eu-Isso, suspendendo a crença no mundo e evitando um encontro na esfera do Eu-Tu. O lugar sagrado de uma totalidade maior é abolido na maior parte das vezes por gratificações esporádicas de uma sociedade hostil e padronizada. 

  

A totalidade do terapeuta em sua singularidade

O Tu se apresenta a mim. Eu, porém, entro em uma relação imediata com ele. Assim, a relação é, ao mesmo tempo, escolher e ser escolhido, passividade e atividade. Do mesmo modo, uma ação do ser em sua totalidade como supressão de todas as ações parciais, e, por conseguinte, de todas as sensações de ação (as que não são fundamentadas senão em sua limitação recíproca), deve tornar-se necessariamente semelhante a uma passividade.

Esta é a atividade do homem que atingiu a totalidade, a atividade que se chamou o fazer-nada, onde nada mais isolado nada parcial se move no homem e, também nada dele intervém no mundo; onde é o homem total, encerrado e repousado em sua totalidade que atua; onde o homem tornou-se uma totalidade atuante. Ter conquistado a firmeza nesta disposição, significa estar preparado para o encontro supremo.

Buber

 

Em nenhum momento podemos esquecer a importância da totalidade do terapeuta essenciais na situação terapêutica. Sua singularidade é o seu instrumento de trabalho, e precisa estar a serviço do outro. É preciso encontrar a nossa totalidade particular para ir de encontro ao outro e com ele defrontar-se e confrontar-se nesse arriscado momento Eu-Tu.

A presença, tão enfatizada por Buber, é o requisito básico para a auto-expressão da totalidade singular. Quando se vence a resistência do “entre”, a totalidade emerge da experiência Eu-Tu no aqui e agora, e a partir daí a restauração do ser simplesmente acontece. A cura se desenrola surpreendentemente com todo o viver desse encontro. Com freqüência, os limites dialógicos são distintos, dentro da complexidade singular de cada ser. Precisamos estar disponíveis para o processo genuíno da relação dialógica, e onde a totalidade do ser se torna emergente juntamente com a do terapeuta - Eu para receber esse paciente – Tu.

Integrando arte e técnica, o terapeuta dialógico, com toda a sua instrumentação gestáltica experiencia também a sua totalidade singular como terapeuta. 

(...) apreendê-lo como esta pessoa bem determinada em sua potencialidade e atualidade, mais explicitamente, ele não deve ver nele uma simples soma de qualidades, tendências e obstáculos, ele deve compreendê-lo como uma totalidade e afirmá-lo nesta sua totalidade. (...) ele deve exercitar o tipo de realização que eu chamo envolvimento.

Buber

 

É preciso restabelecer a relação dialógica da fé, com uma postura permissiva para ir de encontro ao outro. Correr todos os riscos, da extensão da Gestalt-Terapia e todo o seu processo dialógico para encontrar a totalidade singular do ser em toda a sua magnitude. Ter a habilidade de estar presente, potente e impotente diante da relação Eu-Tu. É preciso acreditar no mundo, é necessário desenvolver o amor incondicional e sustentar a postura dialógica nas relações com o mundo. Essa é verdadeiramente a atitude dialógica impregnada na Gestalt-Terapia na sua visão existencial-fenomenológica. E onde fronteiras são rompidas, selfs se encontram numa misteriosa compreensão do ser humano em três dimensões: intrapsíquica, interpessoal e transpessoal numa grande comunhão.

 

Somente aquele que crê no mundo pode ter algo a ver com o mundo.

Buber

 

Somente aquele terapeuta que crê verdadeiramente no mundo pode ter acesso à totalidade emergente de cada ser de forma singular. 

Somente aquele terapeuta que crê verdadeiramente na relação dialógica pode ter algo a ver com o mundo.

 

 

 

Referências Bibliográficas

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HYCNER, R; JACOBS, L. Relação e cura em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.

BUBER, M. Eu e tu. São Paulo: Centauro, 1974.

 _______. Do diálogo e do dialógico. São Paulo: Perspectiva, 1982.

CARDELLA, B. O amor na relação terapêutica – uma visão gestáltica. S.P.: Summus, 1994.

_______. A construção do psicoterapeuta – uma abordagem gestáltica. S.P.: Summus, 2002.

RIBEIRO, W. Existência e essência – desafios e práticas das psicoterapias relacionais. São Paulo: Summus, 1998.

JULIANO, J.C. A arte de restaurar histórias. São Paulo: Summus, 1999.

TOBIN, Stephen A. Tobin. Totalidade e auto-sustentação. In: Isto é Gestalt. São Paulo: Summus, 1975. 

RIBEIRO, J.P. O ciclo do contato. São Paulo: Summus, 1997.

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